|
CONSIDERAÇÕES SOBRE A REPOSIÇÃO HORMONAL
NA MENOPAUSA APÓS ESTUDO DENOMINADO (WHI) "WOMEN'S HEALTH
INITIATIVE", PUBLICADO NO JOURNAL OF AMERICAN MEDICAL ASSOCIATION
EM 17 DE JULHO DE 2002.
Há
cerca de 40 anos, na década de 60, as mulheres começaram
a se libertar dos sintomas e compensar as alterações
orgânicas da menopausa, quando a indústria farmacêutica
iniciou a produção de hormônios específicos
para este fim. Desde então os ginecologistas puderam receitar
os primeiros remédios lançados nas farmácias.
Com o passar dos anos, as formulações foram sendo
aperfeiçoadas em conseqüência de inúmeros
estudos e pesquisas, chegando-se à conclusão de que
menor dosagem hormonal nos produtos e diferentes esquemas de utilização
produziam o efeito desejado.
Inicialmente a administração, que era sempre por via
oral, aperfeiçoou-se com medicações absorvíveis
por via transdérmica, vaginal e até nasal.
A reposição hormonal demonstrou inquestionáveis
benefícios, tais como o controle dos fogachos (calores),
da redução da perda óssea, da manutenção
da saúde urogenital, da sexualidade, da libido, da vitalidade
de mucosas e pele e, finalmente, como conseqüência, a
melhora da auto-estima junto ao bem estar físico e mental.
Posteriormente, novos estudos demonstraram uma possível proteção
contra as doenças degenerativas do coração
e, mais recentemente, como uma forma de prevenir ou postergar a
doença de Alzheimer.
No ano de 2000, um estado chamado "HERS", questionou,
e até mesmo concluiu, que os benefícios na esfera
cardíaca eram inexistentes para mulheres que já portassem
alterações do coração e que a reposição
poderia beneficiar apenas aquelas saudáveis nessa área.
O maior cuidado, contudo,desde o início da terapêutica
de reposição hormonal, é que se sabia que ela
traria um maior risco de câncer mamário e de trombose
em mulheres susceptíveis a estas patologias.
Os estudos e trabalhos sobre o risco de câncer de mama associado
à reposição hormonal porém, não
concluíam, de forma definitiva, os graus de risco.
No Congresso Mundial da Sociedade Internacional de Menopausa, ocorrido
em 1999 em Yokohama no Japão, ficou estabelecido que se deveria
aguardar novos estudos para se chegar a uma exata relação
entre câncer de mama e reposição hormonal na
menopausa.
Até que houve a publicação do WHI, citado acima,
que teve o seguinte resultado:
1. Mulheres Com Útero:
Aumento de Risco
- Câncer de Mama (8 casos em 10.000 / ano)
- Infarto do Miocárdio (7 casos em 10.000 / ano)
- Trombose Venosa (8 casos em 10.000 / ano)
Diminuição de Risco
- De Fraturas (5 em 10.000 / ano)
- Câncer de Intestino Grosso (6 em 10.000 / ano)
2. Mulheres Sem Útero:
· Não houve até o momento aumento do risco,
estando o mesmo dentro dos limites pré-estabelecidos pelo
comitê de monitorização, continuando o grupo
de mulheres em estudo a fazer reposição.
· Em razão do aumento de risco do grupo de mulheres
com útero, o programa foi interrompido para este segmento
do estudo.
CONSIDERAÇÕES
Em função da enorme repercussão na mídia,
e conseqüentemente intranqüilidade das mulheres em reposição
hormonal, a FEBRASGO (Federação Brasileira das Sociedades
de Ginecologia e Obstetrícia) e a SOBRAC (Sociedade Brasileira
de Climatério) enviaram a todos os afiliados um consenso
que transcrevemos na íntegra a seguir:
1. Deve ser levado em consideração que apenas um regime
terapêutico foi utilizado, uma única dose dos hormônios
foi empregada (doses convencionais) e uma única via de administração
dos medicamentos foi testada. Não se analisou as vias não
orais (adesivos transdérmicos, gel, implantes e via nasal).
Não se avaliou os vários tipos de regimes terapêuticos
disponíveis em nosso país. Analisou-se apenas o regime
terapêutico que é mais empregado no país em
que o estudo foi realizado. Não se levou em consideração
os aspectos clínicos singulares de cada paciente que permitiriam
a individualização por parte do médico do regime
mais apropriado para cada caso, possibilitando, desta forma, otimizar
os benefícios e reduzir os riscos.
2. O aumento do risco relativo de câncer de mama já
era referido em estudos anteriores. Parece, conforme o próprio
WHI mostra, depender do tempo de uso dos hormônios e do emprego
concomitante e contínuo de progesterona junto com o estrogênio.
O risco neste estudo só foi observado depois de um tempo
médio de seguimento de 5,2 anos, o que já havia sido
notado em outros estudos.
3. O grupo de mulheres no estudo WHI que estão usando apenas
estrogênios não foi interrompido, pois os limites de
segurança estão preservados. Os seus resultados serão
divulgados em tempo oportuno.
4. Os resultados deste estudo, inquestionáveis, devem, no
entanto, ficar estritos ao regime de tratamento empregado às
pacientes dessa faixa etária. Não se podem extrapolar
os seus resultados para todos os outros tipos de regimes terapêuticos.
De igual modo, não podem ser estendidos para mulheres que
iniciam a TRH mais cedo em período mais próximo da
menopausa.
5. Atualmente, existe uma tendência mundial para administração
de baixas doses de hormônios nas mulheres com maior tempo
de pós-menopausa e/ou idade mais avançada, o que não
foi avaliado no estudo WHI.
Parece-nos importante esclarecer que a decisão clínica
de iniciar ou dar continuidade a TRH (Conjunta de Médico
e Paciente) deve levar sempre em consideração a peculiaridade
de cada caso em particular procurando-se individualizar o regime
terapêutico a ser adotado, as doses e vias a serem empregadas,
o tempo de utilização dos hormônios, os benefícios
e os riscos desta modalidade de tratamento. Com base nos resultados
publicados não parece apropriado indicar a TRH em esquema
combinado em contínuo com estrogênios e progesterona,
especialmente com os mesmos hormônios e as mesmas doses usadas
no estudo WHI, visando a prevenção primária
de infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral.
Por fim, gostaríamos de enfatizar que não existe razão
para pânico. As pacientes usuárias de TRH que estejam
preocupadas com o seu tratamento, devem compartilhar com os seus
médicos de confiança a decisão de continuidade
do seu atual regime de TRH, da eventual conveniência de mudanças
ou mesmo da sua interrupção.
|